ventura.31.08.2006This is a featured page

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Revestimento firme


Especificação e aplicação incorretas de argamassa colante causam prejuízos e acidentes. Veja o que exigir de um bom cimento-cola

O descolamento do revestimento cerâmico, seja em paredes ou em pisos, pode implicar grave problema de segurança ou habitabilidade ao usuário de uma edificação, podendo estar associado a descuidos na aplicação ou ao emprego de uma argamassa colante de qualidade duvidosa.

A resolução dessa patologia não é simples e pode ser muito onerosa. Por outro lado, as conseqüências não seriam tão preocupantes se fossem apenas estéticas. A argamassa colante tem um papel fundamental na aderência das placas e, quando incorretamente aplicada em fachadas, por exemplo, põe em risco a vida de pessoas. Sem contar os danos à saúde que podem surgir devido à proliferação de fungos decorrente da umidade absorvida por uma parede sem revestimento.

"A reposição de placas cerâmicas que descolam devido à baixa qualidade da argamassa colante implica custos não só com a própria argamassa colante, mas com os revestimentos e com a mão-de-obra para sua colocação e, mais ainda, se a cerâmica não for encontrada, certamente irá exigir a troca de todo o revestimento das paredes", lembra Vera Fernandes Hachich, gerente técnica da Tesis.

Todos esses motivos associados são argumentos suficientemente convincentes para que o construtor tome as devidas precauções na hora de especificar esse item. Vanderley John, professor do departamento de engenharia de construção civil da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, alerta que os construtores devem estar sempre atentos à qualidade do produto e jamais basear sua compra no menor preço.

Mas quando o assunto é argamassa não basta apenas especificar corretamente. Boas práticas de preparo e aplicação são quesitos fundamentais para o sucesso do projeto de revestimento. "A especificação e a aplicação estão interligadas. O mais complicado é identificar o produto mais adequado para um determinado serviço e aplicá-lo de maneira a não comprometer o seu desempenho", lembra Cláudio Fernandes, gerente de suprimentos da Rossi Residencial.

Para Paulo Flaquer Filho, gerente de produção da Construtora Tarjab, o acompanhamento do fabricante durante a fase de execução poderia ser um caminho para a identificação de falhas no processo. "Essa conduta seria uma maneira de otimizar a relação entre fabricante e construtor, melhorando o mercado como um todo", sugere.

Cada caso, uma argamassa
Um dos erros mais comuns é a generalização do uso do produto em situações distintas. A escolha do sistema mais adequado deve ser pautada de acordo com a indicação do local de utilização e o desempenho desejado para a argamassa colante.

Para Maurício Bianchi, diretor técnico da BKO, um bom projeto de revestimento é imprescindível para evitar erros e, conseqüentemente, futuras patologias. Ele acredita que o arquiteto deve se responsabilizar não apenas pela especificação do que ficará aparente - no caso, o revestimento cerâmico - mas também por todos os produtos que são necessários para o sucesso estético e de desempenho do conjunto.

Embora as argamassas colantes industrializadas, entregues ensacadas ou em silos, praticamente dominem o mercado, em algumas regiões do Brasil elas ainda não substituíram a massa "virada" no canteiro de obra. Porém, o perigo dessa prática é que pequenas mudanças na formulação da argamassa geralmente levam a graves problemas na edificação. "Recomenda-se sempre optar pela industrializada, pois trata-se de um produto com um controle de preparo muito maior", salienta John.

De acordo com a NBR 14081, a classificação dos tipos de argamassa colante varia de acordo com o tempo em aberto, a resistência de aderência à tração e o deslizamento, estando vinculada à indicação do local de utilização e ao desempenho desejado.

Para revestir interior, por exemplo, a argamassa mais indicada é a do tipo AC-I, enquanto que a do tipo AC-II é utilizada para revestimento interior e exterior. "A AC-III tem a mesma aplicação que a AC-II, porém com resistência superior", explica Anderson Augusto de Oliveira, gerente do PSQ de Argamassas Colantes do Sinaprocim/Simprocim.

Para situações de assentamento em fachadas que estejam significativamente submetidas à insolação direta, o tipo mais indicado é a argamassa "E", que também é classificada em I, II e III. Além de atender os requisitos das demais, possui tempo em aberto aumentado e, conseqüentemente, permite maior tempo para a execução do assentamento. "O sol ajuda a secar a argamassa mais rapidamente e, se a situação for de muita incidência solar, será muito mais difícil o assentamento", afirma Vera.

Porém, John alerta que ainda não existem estudos científicos que confirmem a qualidade e o desempenho das argamassas expandidas em aplicações de fachadas.

Patologias
A argamassa colante é definida como uma mistura constituída basicamente de cimento, areia e aditivos que possibilitam, a partir da adição de água, a formação de uma massa viscosa, plástica e aderente, empregada no assentamento de peças cerâmicas para revestimento de paredes e pisos.

Como já citado, o descolamento das placas é a principal patologia associada à argamassa colante e com relativa freqüência acontece em virtude da aplicação incorreta ou da especificação de um produto de má qualidade.

Segundo especialistas consultados, para fazer uma boa compra, um dos aspectos mais importantes a ser observado pelo construtor é o tempo em aberto garantido pelo fabricante. Quanto mais reduzido, maior será a retração na secagem, desencadeada pela perda da umidade da argamassa. "A argamassa tende a secar devido à evaporação natural da água para o meio ambiente, formando uma película que prejudica a colagem da placa cerâmica", explica Vera.

A retração gera tensões internas de tração e o que regulará o grau de fissuração nas primeiras idades é a capacidade ou não do revestimento em resistir a essas movimentações.

Por isso, para evitar possíveis danos ao projeto de revestimento, recomenda-se que o produto possua em sua composição aditivos que ajudem na retenção da água. "A redução da quantidade desse aditivo na sua composição acelera o processo de secagem da sua superfície depois de aplicada em paredes ou pisos, reduzindo a capacidade de colagem", completa Vera.

No entanto, Vanderley John faz questão de ressaltar que os dados de tempo em aberto contidos nas embalagens dos produtos existentes no mercado não retratam condições reais de aplicação, especialmente no que diz respeito às fachadas. "O conceito de tempo em aberto é determinado em laboratório, em condições constantes, muito diferentes da situação de uso na obra, onde as argamassas estão sujeitas às ações das intempéries", orienta.


Normas revisadas

Uma das principais queixas de Paulo Flaquer Filho, gerente de produção da Construtora Tarjab, é que as normas técnicas aplicadas às argamassas colantes ainda são genéricas, não definindo claramente características, locais de aplicação e solicitações, dificultando a especificação correta para cada tipo de uso.

Entretanto, de 2002 a 2004, a Comissão de Estudo de Argamassa Colante da ABNT (CE 18:406.04) revisou a norma de especificação e as normas de métodos de ensaios para tais produtos.

De acordo com Anderson Augusto de Oliveira, o Programa Setorial da Qualidade - Argamassas Colantes (PSQ), adotou normas técnicas de empresa (NTEs) para verificação dos limites de especificação e métodos de ensaios dos produtos até que os projetos de norma fossem aprovados e publicados. "Esta atuação foi adotada para a verificação dos requisitos segundo o projeto de norma e, dessa forma, permitiu uma análise crítica dos procedimentos normativos propostos pela comissão de estudos", explica.

No final do ano de 2004, as normas revisadas foram publicadas na ABNT e desta forma as NTEs adotadas pelo programa foram automaticamente substituídas pelas normas revisadas.

Atualmente, a principal novidade é que o estudo do procedimento do ensaio de deslizamento realizado no âmbito do programa e concluído recentemente servirá de base para a próxima revisão da norma de ensaio NBR 14085/04.

Normas técnicas

NBR 14081/04
- Argamassa Colante Industrializada para assentamento de placas cerâmicas - Requisitos.
NBR 14083/04 - Argamassa Colante Industrializada para assentamento de placas cerâmicas - Determinação do Tempo em aberto.
NBR 14084/04 - Argamassa Colante Industrializada para assentamento de placas cerâmicas - Determinação da resistência de aderência à tração.
NBR 14085/04 - Argamassa Colante Industrializada para assentamento de placas cerâmicas - Determinação do deslizamento.


Check-list

Antes de especificar, fique atento aos seguintes detalhes:
  • locais de uso (interno, externo, piso ou parede)
  • tipo de material cerâmico que será empregado (dimensões; absorção de água e composição)
  • uso do ambiente (garagem, sala, banheiro, piscina etc.)
  • forma de preparo do material
  • utilização de ferramentas adequadas para aplicação do produto
  • se há ou não, de acordo com a aplicação, a necessidade de executar a técnica de dupla colagem
  • se a aplicação for em fachadas, atenção. Antes de aplicar, verifique se há ou não incidência de ventos, insolação e quais são as condições de aplicação do produto
  • treino e capacitação da mão-de-obra

    Serviço: o Programa de Garantia da Qualidade de Argamassas Colantes está registrado no PBQP-H (Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade do Habitat). Para conhecer a relação das empresas qualificadas e a relação das empresas não-conformes consulte www.cidades.gov.br/pbqp-h/fabricantes/argamassa_colante/fab_argamassa_colante.pdf.

    Fonte: Paulo Flaquer Filho, gerente de produção da Construtora Tarjab


    Controle

    O controle do tempo em aberto pode ser feito com testes simples na obra. A ocorrência de uma das situações abaixo indica tempo em aberto vencido:
  • Formação de película esbranquiçada na superfície dos cordões
  • Teste do toque: toca-se a argamassa colante com as pontas dos dedos, que não podem ficar sujos
  • Remoção da placa cerâmica recém-assentada, devendo-se observar a presença de argamassa colante em pelo menos 80% do tardoz

    A figura mostra a presença da argamassa colante no revestimento cerâmico de paredes. A argamassa colante tem a função de colar a placa cerâmica




  • Boas práticas

    Base para aplicação

  • No caso de paredes, como ilustrado nas fotos, as alvenarias são normalmente executadas em tijolos maciços, blocos cerâmicos, blocos vazados de concreto, blocos de concreto celular ou blocos sílico-calcários. O emboço deve estar sarrafeado ou desempenado.
  • A verificação da base envolve o nivelamento (denominado popularmente como planeza) e o esquadro, ou prumo. Utilize um esquadro para verificar os ângulos de 90°. Verifique a planeza da base com a ajuda de uma régua de 2 m de comprimento. Os desvios não devem ser maiores que 3 mm em relação à régua. Se os defeitos forem localizados, o emboço pode ser corrigido, porém se as diferenças do emboço em relação ao plano ou ao prumo forem generalizadas, talvez seja necessário refazer o emboço.

    Cura e preparo da base
  • O assentamento das placas cerâmicas só deverá ocorrer após um período mínimo de 14 dias de cura do emboço e/ou da argamassa de regularização ou do contrapiso
  • O substrato deverá estar curado, limpo, isento de poeira, óleo, tinta ou outro material que possa impedir a aderência da argamassa colante
  • Verificar se as possíveis fissuras e retrações estão estabelecidas

    Preparo da argamassa
  • Misturar, manualmente ou mecanicamente, a argamassa em recipiente de plástico ou similar
  • Para os aditivos iniciarem sua ação, a argamassa preparada deve ficar em repouso por um período de tempo de 15 minutos e a seguir ser novamente reamassada
  • A utilização da argamassa deve ocorrer no máximo duas horas e meia após seu preparo. Nunca reutilizar a sobra de argamassa preparada entre um período e outro ou de um dia para o outro
  • Não adicionar novamente água ou outros produtos, antes de utilizar a argamassa
  • A argamassa preparada deverá ser protegida do sol, da chuva e do vento

    Aplicação
    Para um bom desempenho do material, o assentamento das placas cerâmicas deverá seguir corretamente o procedimento de aplicação das normas




  • Estender a argamassa sobre o substrato com
    o lado liso da desempenadeira de aço denteada






  • Em seguida, aplicar o lado denteado da desempenadeira em ângulo de 60° em relação à base, formando cordões que facilitam o nivelamento e a fixação das placas cerâmicas









  • O excesso da argamassa colante, removido com desempenadeira de aço denteada, deve retornar ao recipiente onde está o restante da argamassa colante já preparada, para ser remisturada e utilizada






  • As placas cerâmicas deverão ser aplicadas sobre os cordões da argamassa colante ligeiramente fora de posição












  • Pressioná-las, arrastando-as perpendicularmente aos cordões, até sua posição final. Atingida a posição final, aplicar vibrações manuais






  • Em seguida, bater levemente com martelo de borracha sobre as placas cerâmicas recém-aplicadas









    Reportagem de Gisele Cichinelli
    Téchne 113 - agosto de 2006



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