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Fundações e contenções com perfis metálicos


fonte: Revista Techne - Edicao 128 - Novembro/2007 - www.piniweb.com.br
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As estacas metálicas podem ser cravadas em profundidades dificilmente atingíveis pelas estacas pré-moldadas de concreto, o que acaba por lhes conferir capacidade de carga maior, podendo-se utilizar, na maioria dos casos, a totalidade de sua capacidade estrutural. Tal fato se deve às suas características de resistência à percussão sem que ocorra quebra durante a cravação.

por Ivan Joppert Jr., engenheiro civil, diretor da Infraestrutura Engenharia e professor da Escola de Engenharia Mackenzie, infraestrutura@infraestrutura.eng.br

Sob o aspecto geotécnico, as estacas metálicas são utilizadas como fundações profundas nos seguintes casos:

a) Ocorrência de solo residual (alteração de rocha) onde a profundidade das estacas não é constante, o que gera perdas por sobras e quebras quando se utilizam estacas pré-moldadas;

b) Em solos sedimentares quando há necessidade de ultrapassar horizontes de argila dura ou pedregulho;

c) Em locais com camadas espessas de solos orgânicos moles e/ou areias fofas onde é possível a diminuição da seção da estaca com a profundidade.


Fundaçõesantolara.2007.12.04 - Wiki do Calculistas-BAA solução de fundações em estacas metálicas não é nova, sendo que até há pouco tempo, por problemas econômicos, se restringia à utilização de trilhos provenientes da substituição de linhas de trem ou tubulações velhas vendidas no mercado como sucata, que apresentam as seguintes desvantagens:

  • Baixa carga estrutural que esses elementos possuem por serem materiais reutilizados;

  • No caso de trilhos usados, é freqüente a necessidade de composição de dois ou três trilhos soldados longitudinalmente para se formar uma estaca com capacidade estrutural maior. Com isso aumenta-se a inércia e a área de aço visando diminuir torções e flambagem durante a cravação, porém com a desvantagem dos custos serem maiores;

  • No que se refere a tubos de aço, normalmente o mercado oferece bitolas pequenas (de 10 cm a 25 cm de diâmetro), que acaba resultando em pequenas cargas unitárias por estaca, necessitando-se, por conseqüência, de um número maior de estacas por pilar;

  • Tanto os trilhos como os tubos são fornecidos sem garantias dimensionais e de linearidade devido à deterioração pelo uso anterior, o que leva a necessidade de cortes e emendas de difícil estimativa no que se refere à quantidade e custos.

Atualmente, com a disponibilidade de perfis estruturais laminados no mercado brasileiro, com ampla variedade de bitolas, nas formas I e H, tornou-se mais interessante, sob o aspecto técnico e econômico, o uso de perfis novos, aproveitando integralmente a sua capacidade estrutural. Para tanto, devem-se considerar aspectos tais como a resistência do aço utilizado para fabricação, uniformidade e retilinidade das peças, e o seu desempenho frente à corrosão. Os perfis laminados fabricados no Brasil seguem as especificações da norma ASTM A6/6M e são produzidos em aço ASTM A 572, grau 50, com tensão de escoamento de ƒ = 3.500,00 kg/cm² (38% maior em comparação com o aço ASTM A 36). A aplicação dos perfis estruturais laminados em obras de fundações e contenções vem crescendo exponencialmente, em função, basicamente, dos seguintes fatores:

  • Garantia da aplicação de material com excelente qualidade e com grande resistência estrutural;
  • Disponibilidade no mercado de grande número de bitolas possibilitando a otimização entre as cargas atuantes e as cargas resistentes;
  • Maior facilidade de manuseio devido ao menor peso das peças quando comparados com os elementos pré-moldados de concreto;
  • Redução das perdas devido à inexistência de quebras e a viabilidade de se emendar sobras;
  • Inexistência de vibração quando se implantam os perfis por meio de percussão ou por técnicas modernas tais como a perfuração com equipamentos de hélice contínua.

Nesse caso, substituem-se com muita vantagem as gaiolas de armação por uma peça estrutural de aço, tendo como resultado a conseqüente diminuiçãodemão-de-obra e agilização dos serviços.

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Normas de cálculo vigentesSegundo a norma NBR 8800/1986 – Projeto e Execução de Estruturas de Aço de Edifícios (Método dos Estados Limites) para fins de dimensionamento estrutural dos perfis trabalhando como estacas comprimidas, devem-se levar em consideração os seguintes fatores que vão limitar as suas tensões de trabalho:

  • Coeficientes de resistência na compressão e na flexão do aço Æc = 0,90;

  • Fator de segurança que majora a carga atuante: variável de acordo com a solicitação, mas normalmente considerado como sendo gg = 1,4 (a favor da segurança).

Fatores de segurança – NBR 6122 – Projeto e Execução de FundaçõesSegundo a NBR 6122 as fundações profundas devem ser dimensionadas para trabalhar com fator de segurança com relação à ruptura maior ou igual a 2. Pode-se trabalhar com fator de segurança de 1,6 desde que seja executada uma prova de carga prévia nas estacas antes do detalhamento do projeto de fundações. Sendo assim, a carga de trabalho das estacas fabricadas em aço ASTM A572, grau 50, deverá ser dimensionada segundo as proposições abaixo:
a) Estacas dimensionadas por método de calculo de capacidade de carga
(FS = 2,00) antolara.2007.12.04 - Wiki do Calculistas-BA

Efeito da corrosão nas estacas

O efeito de corrosão nas estruturas enterradas está condicionado basicamente aos seguintes fatores:

  • Granulometria do solo: de um modo geral nos solos pouco aerados a velocidade da corrosão é menor do que nos solos mais aerados;

  • Profundidade: um subsolo homogêneo, no que se refere à granulometria, apresenta diferentes concentrações de oxigênio com a variação da profundidade. Normalmente, a partir de 1,5 m de profundidade, a concentração de oxigênio é muito reduzida e de difícil reposição;

  • Características químicas dos solos: solos potencialmente mais corrosivos possuem elementos químicos alcalinos tais com sódio, potássio, cálcio e magnésio bem como elementos constituintes de ácidos como carbonatos, bicarbonatos, cloretos, nitratos e sulfatos;

  • Acidez do solo: a acidez do solo tem grande influência sobre a corrosividade. Em algumas situações especiais (solos com pH<4) pode ocorrer corrosão na maioria dos metais enterrados, independentemente da presença de oxigênio;

  • Resistividade do solo: assim como a acidez, a resistividade do solo tem certa influência na corrosividade. Pode-se afirmar, então, que quanto maior a resistividade do solo tanto menor será a corrosão nas estruturas enterradas. A resistividade, por sua vez, está relacionada com a quantidade de sais dissolvidos (quanto maior a quantidade de sais maior a corrosão), a temperatura, a umidade, a compactação e a presença de materiais inertes.

A NBR 6122 estabelece a redução de 1,5 mm da espessura do perfil, em todo o seu perímetro. Como conseqüência, as estacas devem ser dimensionadas com uma área útil menor do que as especificadas nos catálogos do fabricante de acordo com a fórmula Aútil = Areal – (perímetro x 0,15), e com a tabela 1.

Deve ser ressaltado que esse requerimento está sendo reavaliado com base em parâmetros menos conservadores que levam em conta as condições de contorno do solo local. Diversas análises feitas em peças de aço enterradas em todo o mundo demonstram que os atuais parâmetros de perda de massa adotados pela NBR 6122 seriam válidos para uma estaca com uma vida útil de 50 anos, implantada em solo orgânico muito ácido (pH<4), condição raramente observada na grande maioria dos solos brasileiros.

Exemplo de aplicação: verificação estrutural de uma estaca HP 310 x 110 antolara.2007.12.04 - Wiki do Calculistas-BA

Comparativo de resistência entre perfis
Quando se analisam os vários tipos de perfis existentes no mercado é possível verificar que para perfis com mesma capacidade estrutural, os perfis laminados de abas paralelas produzidos em aço ASTM A 572, grau 50, proporcionam uma economia de material de aproximadamente 13% quando comparados com os perfis tradicionais produzidos em aço ASTM A 36; e em torno de 45% quando se trata de trilhos usados. Também se deve levar em consideração o fato de que os perfis laminados são peças homogêneas (mesma composição de aço em toda a sua massa) e têm qualidade certificada.

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Estacas com seção variável
Atualmente estão sendo utilizadas com relativo sucesso as estacas metálicas com seção variável ao longo da profundidade. Essa solução é aplicável em locais onde as estacas são muito longas, a exemplo da região da Baixada Santista, litoral de São Paulo, onde as estacas atingem até 50 m de profundidade. A solução conta com a dissipação da carga que incide no topo da estaca ao longo da profundidade por meio de atrito lateral. Devido à necessidade de emendar a estaca por meio de solda, é possível compô-la com o mesmo tipo de perfil (por exemplo, HP 310) em segmentos de espessura de aba e alma diminuindo com a profundidade, a exemplo da figura 2.

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Contenções utilizando-se perfis metálicos

Perfis com pranchada
A utilização de perfis metálicos como contenção, quando cravados junto ao limite das suas escavações, traz as seguintes vantagens ao construtor:


  • Escavação junto às edificações vizinhas com prancheamento simultâneo e seu conseqüente escoramento;

  • Possibilidade de esses mesmos perfis serem utilizados como fundações, servindo de apoio das lajes periféricas da edificação;

  • Pequena espessura final do arrimo após a execução de cortina de concreto armado (aproximadamente 35 cm quando se utilizam os perfis da linha W250 ou I10").

No caso da utilização desse tipo de contenção com a finalidade da implantação de subsolos em edifícios urbanos, é comum que ela seja encarada como provisória, sendo que o trecho prancheado fica normalmente em balanço e o restante do perfil engastado no solo. Como essa etapa da obra é relativamente rápida (um ano aproximadamente), não se considera a diminuição da seção do perfil devido à corrosão, sendo que o momento máximo do perfil pode ser obtido pela fórmula:

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No quadro 1 podemos estabelecer as correlações entre os momentos máximos dos perfis metálicos utilizados nessas contenções.

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Parede-diafragma com estacas secantes
A solução "parede-diafragma com estacas secantes" vem ganhando mercado, sendo uma concorrente direta da parede-diafragma executada com o auxílio da lama bentonítica. Tal fato se deve à sua grande versatilidade quando comparada com as técnicas tradicionais, por tratar-se de processo limpo, que envolve equipamentos de menor porte, além de penetrar em materiais de grande resistência tais como argila dura e rocha gnaisse A4. Sua execução segue a seguinte metodologia:

Perfuração
O equipamento utilizado na execução da cortina de estacas secantes é uma perfuratriz de hélice contínua que possui um acessório na torre de perfuração, chamado "cabeça dupla", que possibilita a execução de perfuração encostada na divisa e o recorte de peças de concreto. A cabeça dupla é composta por um tubo de revestimento que gira no sentido anti-horário e um trado helicoidal que gira no sentido horário, de modo que o tubo de revestimento perfura e o trado helicoidal limpa a parte interna da perfuração. A ponta do tubo de revestimento é composta por aço-vídea que possibilita o recorte de peças de concreto.

•Concretagem
Faz parte do processo de execução o preenchimento das estacas com argamassa fluida pós-misturada de cimento e areia, fornecida por silos ou com argamassa proveniente de usina transportada por caminhão betoneira. A argamassa deve possuir slump mínimo de 27 cm ± 2 cm, slump flow de 32 cm ± 4 cm e o fck deve estar entre 18 MPa e 25 MPa.

•Armação

As primeiras estacas executadas na obra não devem ser armadas, ou seja, devem ser apenas preenchidas com argamassa. As peças devem ser implantadas deixando-se a previsão para a execução, em uma segunda etapa, de outras estacas entre as já preenchidas com argamassa. As estacas da segunda etapa devem recortar as estacas já preenchidas, de forma a promover a interação de toda a cortina. Essas estacas da segunda etapa receberão a armação necessária para suportar a solicitação dos empuxos à qual estarão expostas (veja figura 4A). Também é possível a utilização de perfis I de aço laminado para a estruturação das estacas (veja figura 4B) tornando a obra mais versátil e com custos bastante competitivos.

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Outra possibilidade é implantar perfis estruturais em vez de armadura nas estacas iniciais possibilitando maior estruturação da parede para absorver grandes esforços cortantes e flexão (veja figura 4B).
Quando se utilizam os perfis laminados como núcleo das estacas é comum que sejam os das linhas W250 ou W310, que devem ser dimensionados de acordo com os esforços solicitantes sem qualquer perda por corrosão, tendo em vista que as estacas estarão sempre protegidas pela argamassa de enchimento das estacas.

A determinação do embutimento abaixo dos subsolos, bem como os esforços e condições de estabilidade da cortina, são os mesmos adotados no cálculo da parede-diafragma escavada com lama bentonítica.

Essa técnica foi utilizada na execução dos shafts para emboques verticais e horizontais dos túneis da passagem da avenida Cidade Jardim sob a avenida Brigadeiro Faria Lima (veja fotos), e também no emboque dos túneis que estão sendo construídos na estação Vila Sonia da Linha Amarela do Metrô com total sucesso, sem que tenha ocorrido qualquer patologia nessas obras.


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LEIA MAIS
Fundações e contenções em edifícios: qualidade total na gestão do projeto e execução. Ivan Joppert Júnior, São Paulo. PINI, 2007.
ASTM A6/6M – Standard Specification for General Requirements for Rolled Structural Steel Bars, Plates, Shapes, and Sheet Piling. American Society for Testing and Materials.
NBR 8800/1986 – Projeto e Execução de Estruturas de Aço de Edifícios (Método dos Estados Limites). ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas).
NBR 6122 – Projeto e Execução de Fundações. ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas).
NB-1 – Projeto e Execução de Obras de Concreto Armado. ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas).
NB-20 – Prova de Carga em Estacas. ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas).
An Approximate Method to estimate the Bearing Capacity of Piles. N. Aoki et D.A. Velloso. V-P.C.S.M.F.E. Buenos Aires, 1975.
Foundation Engineering. G.A. Leonards. MacGraw-Hill, 1962.



antolara 4.12.2007
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