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Inspeção de rotina | ||
| fonte: Revista Técne - Edição 119 - Fevereiro/2007 por Renato Faria Esse mito alimenta o desprezo pela manutenção e tem custado caro às obras brasileiras. Apesar da resistência e das características inigualáveis do concreto armado, não se pode esquecer de que se trata de um material sensível à agressividade do ambiente. "As ações de manutenção visam, em geral, garantir principalmente a integridade das armaduras, que são mais sensíveis às agressões do meio ambiente quando expostas." Para garantir a saúde do edifício, o acompanhamento próximo da evolução do comportamento da estrutura pode exigir vistorias muito mais cedo do que se imagina e a intervalos bem menores. Segundo especialistas, a periodicidade adequada seria a cada cinco anos. "Esse período permite que se interrompa qualquer processo de degeneração que possa ter se iniciado na estrutura", afirma José Roberto Braguim, presidente da Abece (Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural). Mas alguns fatores podem influenciar esse intervalo. O surgimento de trincas ou fissuras pode exigir inspeções imediatas. O tipo de utilização de um edifício é outro fator de agressividade que pode interferir nas inspeções. Uma edificação de utilização pública, evidentemente deve receber uma atenção muito maior", concorda o presidente do Ibape-SP (Instituto Brasileiro de Avaliações e Perícias de Engenharia), Tito Lívio Ferreira Gomide. Projetos originais A pobreza de registros e documentações é marcante nas edificações brasileiras, seja nas públicas, seja nas privadas. Os engenheiros são unânimes ao afirmar que, dos prédios mais antigos - com 20 anos ou mais - que já vistoriaram, a maioria não possui os projetos originais.Normalmente, a recuperação dos projetos originais pode ajudar na anamnese (conhecimento da história do edifício, suas características construtivas e sua concepção de utilização). Segundo Braguim, da Abece, isso não é necessariamente um obstáculo ao engenheiro que vistoria a estrutura. Os demais dados disponíveis - entrevistas com usuários, inspeções visuais, histórico de ampliações da edificação ou das intervenções de manutenção - podem ser úteis para conhecer a construção analisada. Caso necessário, lembra o engenheiro, as dimensões originais podem ser recuperadas com medições in loco da largura e espessura de pilares e vigas, espessuras de revestimentos, extração de testemunhos e análises laboratoriais do traço e da resistência do concreto e exames de pacometria para localização das armaduras. A falta dessa documentação, segundo Graziano, pode ser prejudicial em uma fase posterior do diagnóstico dos problemas encontrados em um edifício. "Para o engenheiro, é importante saber a dimensão do comprometimento que uma patologia significa, ou que atitudes corretivas podem ser feitas com segurança no local", explica. "A construtora poderia entregar junto com as chaves todos os projetos num CD, com a documentação técnica", sugere José Roberto Braguim. Atenção As patologias mais comuns em estruturas de concreto armado são as trincas e fissuras, infiltrações e corrosão das armaduras. Entretanto, como geralmente os elementos estruturais estão aparentes apenas em algumas partes do edifício, como no térreo ou nos subsolos, os engenheiros que realizam vistorias devem estar atentos a outros sistemas, como as alvenarias e os revestimentos. Eles escondem a estrutura e interagem com ela, e simples rachaduras ou desplacamentos de azulejos podem revelar problemas mais sérios, como flechas em vigas e lajes ou infiltrações em pilares. "Ao se constatar anomalias em revestimentos, por exemplo, deve-se retirá-los para fazer uma análise diretamente na estrutura", aconselha Gomide, do Ibape. Outras áreas merecem inspeções obrigatórias, já que a dificuldade de acesso pode esconder a evolução das patologias. É o caso das juntas de dilatação, como lembra Braguim. "São regiões em que podem ocorrer infiltrações devido a uma impermeabilização malfeita." A inspeção das fundações vem recebendo maior atenção nos últimos anos, após o desabamento do edifício Areia Branca, em 2004, em Jaboatão dos Guararapes (PE). Até então, eram muito raras essas inspeções devido à dificuldade de acesso. Recentemente, porém, a Abece, junto com outras entidades de engenharia pernambucanas, elaborou um check-list de vistoria de estruturas (ver ao lado), com uma divisão especial para as fundações. Segundo o documento, é adequado que as inspeções sejam feitas a cada dez anos, em uma amostra de 30% do total de pilares do edifício. "Se, desses pilares, a maioria expressiva apresentar problemas significativos, então deverá ser feito o ensaio em todo o universo", afirma Romilde Almeida de Oliveira, um dos engenheiros que ajudaram a elaborar o check-list. A segurança de outro elemento também vem chamando a atenção de engenheiros estruturais recentemente: as marquises. Tendo como função básica a proteção de uma área comum contra as intempéries, essas estruturas são, por sua própria natureza, um pouco mais sensíveis às agressões do meio ambiente. Graziano explica que o principal componente que lhe dá sustentação é a armadura negativa, que se encontra na sua face superior - uma região que pode acabar sendo esquecida em uma inspeção. E ele alerta: "A marquise é uma estrutura isostática. Se a armadura falhar, ela cai mesmo". Entrevista do Prof. Romilde Almeida de Oliveira "Não houve negligência de inspeção no Areia Branca" Houve negligência na inspeção da estrutura do edifício Areia Branca? Não atribuo negligência aos administradores do edifício durante sua fase de utilização. Durante todo o período de 27 anos de uso, não houve identificação de danos ou falhas em quaisquer elementos que tenham chamado a atenção de moradores ou do condomínio. O prédio tinha problemas, que, no entanto, não eram aparentes. Onde ocorreram esses problemas? No acidente do Areia Branca, a causa determinante do desabamento se deu nas fundações, parte enterrada do edifício. Foi exatamente a ruptura dos pilares na zona compreendida entre o topo das sapatas e a laje do piso do subsolo, que sela toda a área da edificação. Ou seja, uma região que comumente não era visitada nos edifícios brasileiros. Principalmente porque há uma grande dificuldade a transpor: uma inspeção desse tipo exigiria quebrar todo o subsolo e destruir acabamentos bons. Quais foram as causas da ruptura? Havia falhas construtivas graves. Entre outras, foram detectadas a má concretagem das sapatas e dos pilares, má vibração do concreto, utilização de um concreto poroso, com fator água-cimento elevado, trechos em contato permanente com umidade, o que favorecia a corrosão de armaduras e a deterioração do concreto. Um dos pilares falhou, depois outro, em razão da transferência de carga, gerando um efeito dominó. | ||
| colocada por antolara em 10/3/2007 |
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