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ENSINO DA ENGENHARIA NO MUNDO CONTEMPORÂNEO
Antonio Carlos Reis Laranjeiras, Prof. Emérito da Universidade Federal da Bahia, antolara@terra.com.br, Salvador, BA
Resumo: O texto que segue é uma adaptação da palestra proferida pelos 110 anos da Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia, no dia 14 de março de 2007, e seu interesse é o de analisar os desafios do mundo contemporâneo no ensino da Engenharia.
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Salvador, 14 de março de 2007.
1. INTRODUÇÃO
O desenvolvimento desse tema terá início, necessariamente, pela identificação do cenário de mudanças do mundo contemporâneo, para, em seguida, caracterizar suas influências no ensino superior, particularmente no ensino da Engenharia.
Em benefício da clareza, esse desenvolvimento será dividido nas seguintes partes principais:- O mundo contemporâneo: do Moderno ao Pós-moderno;
- Impactos no ensino superior da Engenharia;
- Conclusões.
Um aviso importante: por trás da discussão sobre ensino superior, estarei, na verdade, falando sobretudo de nós mesmos, de nossa perplexidade frente ao mundo de hoje. O tema é pois amplo, complexo e delicado. Por mais que me esforce muito ficará incompleto e por ser dito. Evoco em meu auxílio as palavras de Clarice Lispector:
“As palavras me antecedem e ultrapassam, elas me tentam e me modificam e se não tomo cuidado será tarde demais: as coisas serão ditas sem eu as ter dito. Ou pelo menos não era apenas isso.”
2. O MUNDO CONTEMPORÂNEO: do Moderno ao Pós-moderno
As radicais transformações sociais, políticas, culturais, éticas, tecnológicas, econômicas que fazem a realidade do mundo contemporâneo representam o despontar de uma nova era na história de nossa civilização.
Esse novo cenário é identificado, no jargão sociológico, como pós-moderno, para estabelecer um claro contraponto com o antigo cenário que se desfaz, identificado como moderno. Os sociólogos registram as primeiras mudanças a partir de 1950, mas as grandes, rápidas e radicais transformações passam a ter lugar a partir da década de 90, com o acelerado progresso tecnológico da informática, da telecomunicação e da mídia eletrônica.
Afinal o que é o Pós-modernismo? O que caracteriza a Pós-modernidade? O que significa ser pós-moderno?Faço uma observação preliminar: o Pós-modernismo não é um quadro coerente de transformações que se realizem por força de um princípio único gerador, como aconteceu no Modernismo. É antes uma colagem de transformações diversas que se associam e convergem por afinidades recíprocas: globalização, neoliberalismo, políticas afirmativas; diversidade; imediatismo; flexibilização; narcisismo, etc. É mais um cenário composto de painéis diversos e independentes, mas que uma vez associados fazem sentido. Para usar uma metáfora pós-moderna, o Pós-modernismo é como a arquitetura do hipertexto dos computadores, que nos permite saltar de um sítio para outro na internet, autônomos mas conectados entre si.
Um momento! Se a exposição continuar nesses termos, deixarei para trás o compromisso da clareza, assumido no início dessa narrativa. Vou ser mais claro! Recomecemos com uma abordagem histórica que ajude a ordenar nosso entendimento. Como chegamos ao Pós-modernismo? Bem, essa pergunta é facil de responder: passamos antes pelas etapas do Pré-modernismo e do Modernismo.
No Pré-modernismo - século V ao XVII - a civilização acreditava em Deus ou em Deuses, e seus mandamentos - as leis de Deus - eram as próprias leis dos homens, as regras da vida. “O Senhor é meu Pastor e nada me faltará!”. A esperança repousava no futuro, na recompensa celestial, e o futuro só a Deus pertencia! O Iluminismo humanista – século XVII a XIX – (Kant, Galileo, Descartes, Pascal, Hooke, Newton, Leibnitz, Bernouilli, Euler, d’Alembert, Lagrange, Laplace, Navier, de Saint-Venant, Stokes, Kelvin, Boussinesq) inspirou a etapa seguinte: o Modernismo. Os iluministas substituiam a autoridade e a tradição do Pré-modernismo pela Ciência e pela Razão. As leis da natureza passaram a ser as regras da vida. A esperança estava ainda no futuro, porém não mais no céu mas sim aqui mesmo na terra. O futuro deixava de pertencer a Deus e passava às mãos do Homem, responsável pelo seu próprio destino.
Por meio da razão e da ciência, o Homem poderia desvendar as Leis da Natureza, com modelos determinísticos encontrar a verdade científica – Ciências Exatas - e, pelo conhecimento, promover o progresso humano, universal, ordenado e igualitário. A Razão, o Determinismo, a Verdade, o Conhecimento, o Progresso e a Ordem são assim alguns dos atributos importantes do Modernismo. A nossa própria bandeira ostenta um lema modernista, positivista: “Ordem e Progresso”.O progresso estaria representado pela melhoria de vida das coletividades, sob premissas igualitárias e justas. O modernismo acreditava assim que um mundo igual e melhor era possível!
A industrialização que teve então lugar, assumiu papel relevante como agente de aceleração do modernismo, assim como o progresso tecnológico potencializa, hoje, as radicais transformações do Pós-modernismo.
Essa idéias humanistas foram consolidadas, em fins de 1948, com a aprovação pela Assembléia Geral das Nações Unidas da “Declaração Universal dos Direitos Humanos”, pela qual todos os seres humanos nascem livres e iguais em direito e dignidade; todos têm iguais direitos e oportunidades à educação. A educação primária deve ser compulsória. A educação superior será accessível a todos na base do mérito.
Surge então a Pós-modernidade – meados do século XX – após a segunda guerra mundial, já anunciada pelas análises críticas de filósofos como Nietzsche e Heidegger. O desencanto com o Humanismo é a semente do Pós-modernismo. Desencanto pelo reconhecimento de que, na prática, os ideais humanistas do Modernismo reduzem-se a utopias que não se realizam, sejam como proposições humanistas, sejam como explicações científicas do real. A sua pretensão de igualdade e universalidade de direitos regidos pela razão e pela ética, sua promessa de progresso para todos foram desqualificadas pelos eventos históricos, pelos totalitarismos, pelas guerras sangrentas, pelos genocídios, pelas discriminações étnicas, pelas desigualdades sociais, pela miséria e pela fome, pelas violências urbanas, pelo flagelo imposto ao meio ambiente e devastação dos recursos naturais e demais horrores que presenciamos, nas últimas décadas.Os pós-modernos consideram irreais os sonhos de universalidade do Modernismo, rejeitando essas visões abrangentes em favor de uma visão pormenorizada de grupos sociais, com suas singularidades e particularidades. Segundo os pós-modernos, a Universalidade deve ser substituída pela Diversidade, o Direito igualitário pelo Direito diferenciado de segmentos sociais. Cultura não poderá ser mais escrita no singular pois há culturas diferentes e realidades multiculturais e transculturais. Não existirá mais a alta cultura e a baixa cultura. O que é melhor para uma cultura pode não ser para outra. Os lemas de Liberdade, Justiça e Igualdade terão de ser reconstruídos no âmbito de cada grupo, de cada cultura, pelas suas necessidades singulares.
Um exemplo atual, autêntico e emblemático do pós-modernismo é a política de cotas no ensino superior, pela qual garantem-se regras diferenciadas para acesso aos grupos sociais classificados como excluídos, entre os quais os afrodescendentes, índio-descendentes, estudantes de baixa renda ou egressos de escolas públicas. Uma política que faz caduco o paradigma modernista de critério único de acesso pelo mérito, consolidado na Declaração Universal dos Direitos Humanos (artigo 26) e referendado na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei 9394:1996; Art. 4º inciso V), para privilegiar o Direito diferenciado de segmentos sociais. A aplicação imediata dessa política por algumas Universidades, inclusive a nossa, mesmo antes de sua legislação pelo Congresso Nacional, tem a pressa e o imediatismo, atributos típicos do pós-modernismo. A certeza do Modernismo na verdade científica, segundo os pós-modernos, também desqualifica-se pela constatação de que os fenômenos do cotidiano e do mundo físico não são regidos por leis deterministas, pois são todos de natureza aleatória, indeterminados, regidos pelos conceitos das probabilidades, das incertezas e do caos.
O conhecimento das leis básicas, deterministas, que explicariam os fenômenos naturais como seqüência de causa e efeito permite aos modernos, por dedução, derivar, extrapolar ou transladar esse conhecimento para outros fenômenos naturais semelhantes, para outros campos como das ciências sociais e humanas e para todo o resto. Ao fim, na crítica pós-moderna, as leis deterministas se sobrepõem aos eventos reais, que, ao contrário do que supõem essas leis, são, na verdade, incertos, contingentes.
A mutação do determinismo e da certeza para o indeterminismo, a incerteza e o aleatório trouxe consigo uma visão nova, pluralista, da natureza e da realidade sócio-humana. Assim é na ciência, assim é na visão das diferenciações sociais e humanas em sua grande diversidade e assim também é no pensamento, nas atitudes e no comportamento dos indivíduos. Na Engenharia, por exemplo, a Segurança das construções deixou de ser uma certeza para ser um risco confiável. As melhores formulações das Ciências Exatas não oferecem respostas exatas para as situações reais de nossa profissão. A grande tarefa da Engenharia, hoje, é quantificar as incertezas, tê-las em conta no projeto e na construção, e comunicá-las, adequadamente, aos clientes e à Sociedade. Na Psicologia, estuda-se não mais o sujeito mas sim os seus estímulos e seu comportamento. Na História, o estudo das personalidades é substituído pelo estudo dos condicionamentos sócio-econômicos. E assim seguem também os estudos na Antropologia e na Sociologia sob o novo paradigma da incerteza.
Os trabalhos científicos da era pós-moderna não expressam assim mais verdades universais como antes, mas sim verdades restritas, aplicáveis apenas dentro dos limites definidos nas próprias pesquisas. Essa nova realidade, resulta em diferentes atitudes em relação ao Conhecimento, ao passarmos do Moderno para o Pós-moderno. Para o moderno, o conhecimento é importante por ser uma verdade universal, resultante da aplicação da Razão e da Ciência. Para o pós-moderno, o conhecimento é meramente funcional, para uso, uma verdade limitada ao seu espaço de aplicação e ao seu curto tempo de validade. O conhecimento básico, sedimentar, cede lugar às inovações que se sucedem. Para os Engenheiros pós-modernos, por exemplo, o conhecimento não está mais nos livros e nas revistas técnicas, mas sim nas Normas Técnicas e nos computadores. As Normas Técnicas internacionais – como o International Building Code, por exemplo – são reeditadas, atualmente, a cada três anos, como reflexo da volatilidade do conhecimento técnico.
O acelerado progresso das tecnologias de informação, das telecomunicações e das comunicações de massa tem potencializado e acelerado diversas manifestações da Pós-modernidade. Assim, por exemplo, intensificou a multiplicação e fragmentação do conhecimento e das realidades sociais e culturais, pela difusão intensa e rápida da informação; eliminou a distância, encurtou o tempo e possibilitou o rápido transito de capitais, bens e serviços dentro de um mesmo país e entre nações. Emergência, na era moderna, era ter a ambulância na porta, a necessidade de dar socorro; na era pós-moderna, emergência ganha nova semântica, é ter um celular na mão, a mera necessidade de falar a outra pessoa. Na Pós-modernidade, não existe mais o longo prazo da Modernidade, tudo tem de ser imediato, ao vivo, real ou virtual.
Em decorrência dessas novas facilidades de comunicação, o Estado, em diversos países, reduz, progressivamente, suas intervenções nas esferas sociais e econômicas, transferindo-as para a iniciativa privada – o neoliberalismo – ao tempo em que, pelo comodismo das novas tecnologias, o mundo se transforma em uma grande aldeia global – a globalização – à qual se contrapõem as desigualdades e diversidades entre indivíduos, classes sociais, grupos e nações.
Em uma visão resumida e simplificada, na era Pré-moderna, as regras da vida eram as leis de Deus e a esperança repousava no futuro, na recompensa divina. Na era Moderna, as regras da vida são as leis da Natureza, desvendadas pela razão e pela ciência, enquanto a esperança se situa também no futuro, porém não mais no céu mas sim aqui na terra, nas mãos do próprio Homem. Na era Pós-moderna, as regras da vida são pontuadas pelas suas próprias incertezas, sem leis unívocas, e a esperança é uma emergência do presente, do sucesso imediato, mesmo que efêmero, real ou virtual.
Esses são apenas alguns dentre os muitos aspectos relevantes da pós-modernidade, escolhidos por interessar diretamente ao desenvolvimento do tema proposto: o ensino da Engenharia no mundo contemporâneo.
3. IMPACTOS DA PÓS-MODERNIDADE NO ENSINO DA ENGENHARIA
3.1. Ressalva preliminar
Faço aqui, mais uma vez, uma ressalva preliminar. A passagem da era Moderna, de uma sociedade industrial, de princípios e regras estáveis, para a era Pós-moderna, de uma sociedade da informação, plural e instável, não se integraliza de um momento para outro, mas sim progressivamente. Embora os pós-modernos estejam convencidos de que a Pós-modernidade é, em uma metáfora, um navio que já deixou atrás de si o cais danificado da Modernidade, para o qual não há mais retorno possível, é oportuno lembrar, usando a mesma metáfora, que os interiores desse navio ainda estão decorados, em grande parte, por cenários modernos, e que seus passageiros ainda são modernos, em sua maioria, e mesmo boa parcela dos pós-modernos está em fase de transição, a conciliar suas raízes modernas com a nova consciência pós-moderna.De fato, não fosse assim, em que dificuldades não estaria nossa Escola, por exemplo, se todos seus jovens estudantes aqui chegassem com atitudes pós-modernas para serem educados por uma quase totalidade de professores modernos? Melhor assim, pois nos concede tempo para refletir, planejar e tentar adequar a Escola à nova realidade imposta pela dialética entre o moderno e o pós-moderno.
3.2. Impactos nas Instituições de Ensino Superior
Os impactos da Pós-modernidade no ensino superior da Engenharia assemelham-se a um novelo com muitas pontas. Podemos começar por qualquer delas, embora difícil será puxar uma sem mexer com todo o novelo! Evoco, novamente, Clarice Lispector, minha boa companhia nessa palestra:
“Meu enleio vem de que um tapete é feito de tantos fios que não posso me resignar a seguir um fio só; meu enredamento vem de que uma história é feita de muitas histórias. E nem todas posso contar.”
Mas vamos, para começar, puxar a ponta do neoliberalismo, doutrina considerada pós-moderna, segundo a qual o Estado reduz sua intervenção na esfera social e econômica, ao transferir ou partilhar suas responsabilidades com a iniciativa privada. A redução da participação do Estado em infra-estrutura, geração de energia e, extensivamente, na educação superior é uma manifestação da Pós-modernidade, em escala mundial. Essa subtração do Estado às suas responsabilidades na Educação Superior dá-se em duas vertentes:a) uma vertente interna: limitando a expansão das Universidades públicas; reduzindo a transferência de recursos financeiros, ao tempo em que as pressiona para captação de recursos junto a fundos de financiamento, junto às industrias e ao mercado; e cobrança de mensalidades a estudantes com condição financeira para assumí-las;
b) uma vertente externa: descentralizando a educação superior ao transferir para a iniciativa privada as tarefas da educação superior, pela flexibilização das leis e exigências correlatas.
Essas duas vertentes de ação governamental em nosso país podem ser constatadas no gráfico da figura seguinte, representativo das séries históricas da expansão de vagas nos cursos de graduação em Instituições de Ensino Superior (IES) do país, no intervalo entre 1991 e 2006.

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Figura 1 – Expansão de vagas na graduação (Fonte SINAES)
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Observa-se, pelos dados representados, que, no período, há uma acentuada expansão de vagas nas instituições privadas em contraste com o congelamento de vagas nas instituições públicas. No ano de 2006, as instituições privadas, em todo o país, tiveram uma expansão na oferta de vagas de cerca de 500%, nos últimos 15 anos, contra apenas 92% das instituições públicas. Existem ainda cerca de 300 instituições privadas à espera de aprovação pelo Ministério da Educação para ingressar nesse mercado, que movimenta R$15 bilhões por ano.
A expansão acentuou-se nas instituições privadas a partir de 1997, com a flexibilização das exigências legais pela nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação, de dezembro de 1996. A nova Lei extingue os Currículos mínimos e amplia a autonomia das instituições privadas na criação de cursos de nível superior.
Se as Universidades públicas são compelidas pelo próprio Governo a buscarem seus financiamentos em Fundos de Pesquisa e em outras fontes externas, sendo assim obrigadas a competir, nesse mercado, com as instituições privadas, é indispensável que assumam a autonomia administrativa e financeira, que já lhes é assegurada pelo artigo 207 da Constituição de 1988, mas até hoje à espera de sua regulamentação em lei própria.
Pode-se com razão argumentar que as Universidades públicas sempre foram estimuladas a buscar receitas complementares externas, mas nunca como agora, quando sua qualidade, eficiência e sustentabilidade passam a ser avaliadas pelos mesmos critérios das corporações privadas e com elas - que já detêm 85% da população estudantil unversitária - têm de competir diretamente. Não se trata mais de renunciar aos seus compromissos sociais mas sim, a meu ver, de sobreviver para conseguir cumprir sua missão.
3.3. Impactos na relação Academia e Mercado de Trabalho na Engenharia
Quando me formei nessa Escola, nos idos de 1954, o diploma de Engenheiro era uma garantia de emprego, mas, a partir da década de 80, deixou de ser, pela falta de investimentos públicos e recesso econômico. O desemprego passou a atingir não apenas os recém-formados mas também engenheiros experientes, que, na falta de oportunidades, abandonaram a carreira para abraçar outras atividades, estranhas à profissão, como a de auditores fiscais, por exemplo. Por outro lado, a essa altura, há mais engenheiros aposentando-se do que formando, com o que mais se agrava esse índice de desemprego. Essa situação tem conseqüências negativas no ensino da Engenharia. A profissão perdeu seus atrativos junto aos jovens, e com isso, reduziram-se as ofertas e a demanda por vagas na Engenharia Civil; a nossa Escola, por exemplo, reduziu sua oferta de vagas de 200 para 160, e não oferece, até hoje, nenhum curso de pós-gradução estrito senso – mestrado e doutorado - nessa área. Por outro lado, a preferência corrente da Universidade pela contratação de “Professores Substitutos”, por curto prazo, impede a carreira docente, desestimula a atividade do magistério e favorece o imobilismo acadêmico e pedagógico.
Segundo dados do INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), o total de diplomados no país, em todas as áreas da Engenharia, corresponde a apenas 5% do total de concluintes, no ano de 2005. Esse percentual é inferior a 1%, na área da Engenharia Civil. Para cada Engenheiro Civil, graduam-se em nosso país, atualmente, 18 Administradores.

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Figura 2 – Concluintes na graduação (Fonte SINAES)
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Acontece no entanto que a demanda de Engenheiros no mercado de trabalho voltou a crescer, a partir de 2001, em parte pelos investimentos privados em obras públicas, decorrentes do próprio neoliberalismo.
No cenário pós-moderno atual, essa crescente demanda nos últimos seis anos não conseguiu alterar os índices de desemprego dos engenheiros civis. As empresas de construção e as de recrutamento de pessoal constatam que os engenheiros disponíveis no mercado, principalmente os recém-formados, não preenchem os requisitos exigidos pelo mercado.
Confiram, a propósito, declarações de dirigentes de emresas:
"Eu costumo dizer que o difícil não é contratar engenheiros e técnicos,mas sim encontrar bons engenheiros e técnicos." (Antonio Carlos Zorzi);
"Enxergamos uma lacuna na formação de quem já está no mercado e, principalmente, nos recém-formados" (Fábio Pereira);
"O mercado mudou e precisamos de engenheiros que acompanhem projetos desde a concorrência até a entrega da obra" (Darcy Paranzini)
Realmente, os requisitos hoje exigidos pelo mercado não são mais os mesmos de antes, mas sim os decorrentes da reestruturação do sistema produtivo, promovida pela nova ordem mundial do liberalismo, crescente globalização da economia e amplas possibilidades oferecidas pelas tecnologias da informação e comunicação.
A realidade das empresas é outra em razão do grande aumento da competitividade entre elas na disputa de mercados, que antes eram protegidos e isolados, e a conseqüente diminuição de barreiras físicas, econômicas, culturais e políticas. Nesse contexto de alta competitividade, as empresas necessitam tornar-se ágeis e capacitadas em recursos humanos.
Esses recursos humanos, especialmente os engenheiros, necessitam, por sua vez, desenvolver novas habilidades e competências, muitas das quais ligadas à flexibilização, à polivalência, à pluralidade, aos trabalhos em grupo, ao acesso às informações, ao bom desempenho global e não apenas a conhecimentos em uma dada especialidade. Isso significa dizer que o engenheiro civil não deve ser mais apenas um técnico de engenharia civil, mas necessita estar apto para conduzir negócios, ter visão administrativa, conhecimento de recursos humanos e entender de finanças.
As empresas não esperam mais dos recém-formados, como antes, que tenham apenas um conhecimento fundamental e habilidades que, apesar de incipientes, se transformavam, facilmente, em competências com o “treinamento em serviço”, na terminologia então usada pela Odebrecht. As empresas hoje têm pressa, um atributo da pós-modernidade: querem ter os engenheiros que produzam lucro desde o primeiro dia de trabalho. Pretendem que eles entendam, ao mesmo tempo, de técnica, de negócios, de finanças e de relações públicas para entendimento direto com os clientes. As empresas são hoje descentralizadas, como convém à pós-modernidade; cada projeto ou cada obra é mais um novo negócio, com administração autônoma, com metas e resultados predefinidos, tudo a cargo do Engenheiro. Com essa sensação amplamente difundida de que o Engenheiro que sai da Academia não atende às exigências do mercado, eles próprios, os engenheiros, e a Engenharia em geral sentem a falta da confiança que lhes era depositada no passado. Os profissionais da Engenharia e suas associações de classe lamentam hoje, copiosamente, a perda do prestígio de antes e reclamam por ações que restaurem o status social da Engenharia. Infelizmente essa é, na opinião de pós-modernistas, uma forma moderna e vencida de ver e pensar em uma sociedade que já não é mais moderna mas sim pós-moderna. Na verdade, a Engenharia e os Engenheiros não perderam prestígio, salvo quando ocorrem acidentes como o da estação Pinheiros da linha 4 do metrô de SP; os engenheiros é que ainda não se aperceberam que mudou o Engenheiro e mudou a Engenharia.
Realmente, a Engenharia e o Engenheiro do século XXI assumiram os paradigmas e as características da pós-modernidade.
A Engenharia deixou de ser aquele sistema único da Física Aplicada, da utilização do conhecimento científico e tecnológico para o bem comum, para se fragmentar, se pluralizar –características pós-modernas – em diversos subsistemas todos com suas regras e linguagens próprias: projeto, execução, computação, pesquisa, negócios, comércio, planejamento, liderança, relações humanas, comunicação, acesso à informação e outros mais. Assim como a música que, no início do modernismo, não sendo religiosa era profana, mas hoje é clássica, minimalista, mpb, rock, jazz, samba, axé, frevo, hip-hop, funk, etc.

Não só as empresas têm novas expectativas. A Sociedade também tem. Se a Engenharia lhe diz que opera com incertezas e riscos e que a Sociedade tem de aprender a conviver com essa realidade pós-moderna de que o futuro não tem trajetória definida – assim como os elétrons na Teoria da Incerteza de Heisenberg –, a expectativa da Sociedade passa a ser a de que a Engenharia e os engenheiros saibam lidar com esses riscos e otimizar seus respectivos danos. As responsabilidades sociais da Engenharia e do Engenheiro vão além dos resultados imediatos e se prolongam por suas conseqüências futuras.
A Sociedade esclarecida espera que a Engenharia seja responsável e seja sustentável. Seja responsável pela garantia de que os riscos impostos são aceitáveis, seja responsável pelas interferências de suas realizações com outros interesses da Sociedade, tais como seu bem-estar, sua cultura e sua estética, e que, por fim, seja sustentável, isto é, realize suas obras sem prejuízo do patrimônio ambiental que servirá ao uso das próximas gerações.
Conseqüentemente, com relação ao Engenheiro, a Sociedade espera que ele não se limite, como antes, à competência técnica, mas que saiba também interagir transversalmente em benefício dos seus demais interesses afetados. Para a Sociedade, o Engenheiro não será mais o técnico, mas sim o agente interdisciplinar, consciente e responsável por todas as transformações que seu trabalho produz.
As supostas desconfianças da Sociedade com o Engenheiro acontecem também com os Médicos, com os Advogados e com outros profissionais liberais e não representam perda do valor social dessas profissões. São apenas um traço do cinismo característico da sociedade pós-moderna, motivado pela descrença nas promessas não cumpridas do modernismo, e estimulado pela incompetência recorrente, pela injustiça, pela violência e pela corrupção generalizadas do nosso tempo. No mundo contemporâneo, ninguém merece confiança. Ninguém! Nem os governantes, nem os políticos, nem os policiais, nem os vizinhos, nem mesmo os mestres.
3.4. Impactos na Educação da Engenharia
As novas exigências de capacitação dos recursos humanos para o sistema produtivo, associadas às novas expectativas da Sociedade em relação aos engenheiros representam pressões diretas por mudanças radicais na Educação do Engenheiro, cuja abordagem moderna e tradicional se revela imprópria e inconveniente, conforme nossa discussão precedente. Essa nova abordagem da Educação da Engenharia implica na necessidade de uma nova pedagogia e da readequação dos papéis dos atores envolvidos: professores e alunos.
As Universidades públicas são, ainda hoje, instituições essencialmente modernas, ao assumirem o papel de depositárias do conhecimento científico e da razão. A idéia moderna, já obsoleta, da Universidade é a de uma instituição que tem a responsabilidade de entregar o profissional pronto para o mercado. Nessa lógica, quanto mais informação especializada o aluno obtiver, mais bem formado ele sai da Universidade. A verticalização dos currículos é uma evidência dessa realidade.
Na pós-modernidade, ao contrário, os problemas profissionais da Engenharia não se apresentam como problemas meramente técnicos mas sim multifacetados, como já discutimos antes, em aspectos técnicos, econômicos, humanos, administrativos, culturais, ambientais e éticos.
Esse caráter futebolístico e multidisciplinar de nossa profissão, no mundo contemporâneo, aponta para a necessidade de inverter-se a lógica pedagógica universitária, a qual pressupõe que a prática é uma decorrência da teoria. Na Academia, primeiro ensina-se o conhecimento científico e, depois, em decorrência desse, a formação profissional. Na complexidade interdisciplinar do mundo contemporâneo, a lógica adequada é que a prática, representada no projeto, no estudo de caso, em vez de ser decorrência da teoria seja, ao contrário, o ponto de partida para os questionamentos, para as dúvidas que motivam a aprendizagem, para a busca e a redescoberta do saber e dos comportamentos próprios, para a reconstrução do conhecimento em bases aleatórias, próprias dos casos reais, e não aquelas das certezas científicas.
Não vejo mais espaço, nem justificativas para extensa formação teórica, no cenário pós-moderno. Não que o ensino teórico seja dispensável, pois educar um Engenheiro não é a mesma coisa que ensinar a jogar futebol ou a nadar, onde a prática e o talento esportivos repondem por quase 100% do sucesso profissional. Mas as ciências não oferecem a certeza que o Modernismo supõe, nem fornecem soluções exatas para os fenômenos tratados na Engenharia, que são de natureza aleatória. Como reflexo desses fatos, nossas Normas Técnicas, por exemplo, são fundamentalmente empíricas e não teóricas, e nenhum conhecimento teórico deve ser incorporado aos seus textos sem validação pela prática ou pela pesquisa.
Sozinha, a Ciência (Teórica), na Engenharia, não é confiável!
O trabalho do professor, nessa nova lógica pedagógica, sofrerá, conseqüentemente, grandes alterações.
A pedagogia moderna ainda dominante nas Universidades apóia-se na certeza do conhecimento científico, que tem no Mestre seu depositário fiel. Ele é a fonte do saber e do conhecimento para o aluno, com o que se estabelece um sistema hierárquico de transferência de conhecimentos e uma relação disciplinada de poder, tendo no Professor seu agente, seu vértice e a única Autoridade. O objeto do ensino, nesse contexto, é a matéria, o currículo, o conhecimento a transferir.
Em contrapartida dessa magnificência que lhe é conferida, espera-se de um professor considerado exemplar que seja um mestre em todos os sentidos, um modelo de virtude e de disciplina e que exerça a docência como um sacerdócio, uma missão, com autoridade, bom senso, firmeza, bondade, e saber profissional.
Emblemática dessa visão moderna e ainda dominante do professor universitário é a história do acontecido no primeiro dia do general Dwight Eisenhower como Reitor da Universidade de Colúmbia, em 1948, logo após a segunda Grande Guerra, na qual foi o comandante supremo das forças aliadas e ainda antes de tornar-se Presidente dos EEUU. Em seu primeiro dia como Reitor, foi levado para um passeio pelo campus, apresentado ao Conselho Universitário, cumprimentado pelos servidores técnico-administrativos e, finalmente, encaminhado a uma reunião com o corpo docente.
Eisenhower iniciou sua fala dizendo que era uma grande satisfação conhecer os servidores da Universidade de Colúmbia, e usou a palavra employees, que significa empregados. Imediatamente, levantou-se, no fundo da sala, o Professor Rabi, Professor catedrático, ganhador do Prêmio Nobel de Física em 1944, com muitos anos na casa. Com contida irritação, mas com dignidade, o Prof. Rabi retrucou: “General, os membros do corpo docente não são empregados da Universidade de Colúmbia. O corpo docente é a Universidade de Colúmbia”.
Nas circunstâncias pós-modernas, não se pode mais entender o professor como o detentor do saber, nem o ensino como transferência de um conhecimento pronto e acabado. No novo contexto, ninguém mais detém o saber, e, cada vez mais o conhecimento é partilhado, coletivo. Alunos e professores passarão a reconstruir, conjunta e continuamente, o conhecimento.
Segundo as teorias do psicólogo suiço Jean Piaget, confluentes com o direcionamento pós-moderno, a aprendizagem é um processo intransferível que se realiza, exclusivamente, na cabeça do aluno, ou seja, o aluno não aprende pelo professor mas sim por si mesmo. A aprendizagem, por isso, deve privilegiar a colaboração, a cooperação e o intercâmbio de pontos de vista na busca conjunta do conhecimento. Segundo o próprio Piaget, os objetivos pedagógicos devem estar centrados no aluno, em suas atividades, e não na matéria, no currículo. Ensinar não é transferir conhecimentos, mas criar as possibilidades para sua construção, o que torna o magistério uma Parceria. O Professor não ensina, ele ajuda o aluno a aprender.
Na pós-modernidade, a autoridade do mestre será substituída pelo diálogo, o que conduz, na prática pedagógica, à substituição da maior parte das preleções em salas de aula pela aprendizagem interativa do estudante com o professor ou com professores simultâneos ou mesmo com outros estudantes, através de seminários, workshops, estudo de casos, ênfases em projetos interdisciplinares e ensino complementar à distância.
Retornando à história do primeiro dia do Reitor Eisenhower, no cenário pós-moderno, aparece como desfocada a observação do Prof. Rabi de que o corpo docente é a Universidade. Na Educação da pós-modernidade focada no aluno como seu objeto, seria talvez mais próprio afirmar: o corpo discente é a Universidade!
4. CONCLUSÕES
As Universidades, como instituições tradicionais que são - e a minha querida e centenária Escola Politécnica da Bahia é um bom exemplo - são baluartes do modernismo, e são, ao mesmo tempo, independentemente de sua vontade, o campo privilegiado do confronto entre o antigo e o novo, e onde se decidirão os prováveis caminhos futuros dos mais jovens.
Como poderão nossas Universidades superar os desafios do mundo contemporâneo sumariamente descritos nesse texto é uma pergunta que terá de ser respondida pelos que hoje nela habitam.
Serão muitas as situações em que se terá de fazer opções difíceis, salvo no problema prioritário e vital da autonomia administrativa e financeira, sem a qual a nossas Universidades não sobreviverão com dignidade, nem cumnprirão adequadamente suas funções.
Algumas vezes, as escolhas serão decisivas: Permanecerá a Escola encastelada no culto às Ciências e fiel aos compromissos sociais da Modernidade ou se tornará competitiva no mercado da Educação? Manterá a dicotomia entre a teoria e a prática ou fará a sua integração? O discurso continuará a ser sobre o currículo ou passará a ser sobre a formação docente? O ensino continuará verticalizado, especializado ou será horizontalizado, interdisciplinar?
Críticos do Modernismo afirmam que o progresso científico e da industrialização fez abrir a caixa de Pandora, cujos efeitos são visíveis na agressão ao meio ambiente, na violência urbana e na pobreza. Na mitologia grega, Pandora foi a primeira mulher, criada por Zeus como punição aos homens pela ousadia de Prometeu em roubar aos céus o segredo do fogo. Vários deuses colaboraram em sua criação: Hefestos moldou sua forma a partir de argila, Afrodite deu-lhe beleza, Apolo deu-lhe talento musical e Zeus, além de algumas características pessoais, deu-lhe uma caixa que guardava todos os males que podiam afligir os homens. Ao abrir essa caixa, por ordem de Zeus, Pandora fez com que se abatessem sobre os homens, por castigo, todos os males nela encerrados. Todos menos um, restando apenas, no fundo da caixa, aquele que seria capaz de destruir a Esperança.
E é dessa Esperança, imorredoura virtude, que hoje se nutre nossa confiança no futuro. Esperança de sobrevivência e de transformação de nossas Escolas de Engenharia, acalentada pelos sonhos de excelência na formação de engenheiros competitivos no mercado de trabalho, éticos e responsáveis nos seus altos compromissos com a Sociedade! deu-lhe