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Orçamento positivo

entrevista com Aldo Dórea Mattos, feita para a revista Construção Mercado, janeiro 2007.

aldo.27.12.2006 - Wiki do Calculistas-BA
aldo.27.12.2006 - Wiki do Calculistas-BA
O engenheiro Aldo Dórea Mattos é consultor e professor, participante do grupo Yahoo Calculistas-BA, já trabalhou no setor público e privado, tendo trabalhado em grandes obras no Brasil, Estados Unidos, África do Sul, Moçambique e Peru pela Construtora Norberto Odebrecht.

Por quer elaborar orçamentos ainda é um processo tão complexo para as construtoras?

Este sempre foi um ponto fraco nas construtoras. Orça-se com grande empirismo, com exacerbada dose de sentimento e pouca ciência. O problema vem da base, pois poucas são as pessoas que estudam a teoria orçamentária. É só dar uma olhada nos setores de orçamento das empresas: em sua maioria são recém-formados ou técnicos que aprenderam a orçar simplesmente vendo outros trabalharem. Além disso, há sempre um clima de urgência, os prazos para preparar propostas são exíguos, trabalha-se sempre “para ontem”. Com isso, fica difícil fazer um orçamento perfeito.

Quais etapas um orçamento deve compor?
A seqüência é intuitiva. Primeiro deve-se identificar os serviços da obra e levantar seus quantitativos. É importante que esta parte seja casada com a leitura dos projetos e das especificações técnicas, que onde há definições qualitativas importantes. De posse da planilha de serviços, passa-se a compor o custo unitário de cada serviço. O custo direto total será o produto dos quantitativos pelo respectivo custo unitário. Em seguida, monta-se o custo indireto da obra, que são os custos administrativos, das equipes de suporte e gerencial, as despesas correntes do canteiro, etc. Por fim, sobre o custo direto mais indireto, incidem os percentuais de impostos e lucratividade — que devem ser aplicados juntos —, chegando-se ao preço de venda.

É possível gerar orçamentos exatos ou isso ainda é uma ficção na engenharia?
Na física, há uma diferença entre exatidão e precisão. Exatidão é acertar na mosca, precisão é colocar vários tiros muito perto da mosca. O que se quer com um orçamento não acertar o custo da obra nos centavos, mas prever um valor que esteja dentro de uma pequena e aceitável margem de erro. Quanto maiores o conhecimento e o domínio das variáveis, mais preciso será o orçamento.

Durante a execução da obra, quais são os elementos mais passíveis de imprevistos? Dá para diminuir ou eliminar as causas geradoras de prejuízos orçamentários?
Ao se definir uma produtividade para um serviço, esta premissa já traz certo grau de aproximação, porque ninguém pode garantir que a tal produtividade vá ser alcançada no campo. Este já é um parâmetro de imprevisibilidade. O mesmo se dá com os preços dos insumos, que podem sofrer flutuação. Também o percentual estabelecido de encargos sociais é passível de erro, pois se baseia em estimativas. Se, no entanto, a construtora tiver estudos próprios de produtividade, fizer a apropriação de índices no campo, monitorar os encargos sociais e trabalhar com fornecedores confiáveis, maior a segurança que terá ao orçar.

Sendo o orçamento realizado antes do início da obra, de que forma evitar falhas na composição do custo, já que nem sempre os projetos contêm todas as informações necessárias?
Há alguns anos, anotei uma frase de um engenheiro mais antigo: “obra sem projeto não tem preço e não tem prazo”! (risos) É a coisa mais certa. Quando uma empresa ou até mesmo um profissional autônomo se dispõe a fazer uma obra para um cliente sem conhecer o escopo dos serviços em sua totalidade, está assumindo um risco grande. Mudanças de projeto, alterações de especificações, inclusões de novos detalhes ou o simples detalhamento de uma área que originalmente aparecia como um retângulo “a definir” causam desgaste entre contratante e contratado. Isso precisa ser evitado. A melhor coisa é orçar um projeto pronto, ou então definir o que será o escopo do orçamento e acertar os acréscimos posteriormente.


Quais os principais erros na elaboração das composições de custos?
Um erro comum é não saber avaliar que produtividade usar nas composições de custo. É intuitivo perceber que a produtividade de um pedreiro que vai fazer 100 muros de 2 metros é menor do que a que o mesmo pedreiro atingiria fazendo 1 muro de 200 metros. Ainda que a metragem seja igual, no segundo caso ele vai ter menos interrupção, menos mudanças de ambiente e menos reinícios, e então o serviço vai se desenvolver em vôo de cruzeiro.

Aí pode entrar o TCPO...
Sem dúvida, é a melhor referencia. O TCPO traz vários estudos de produtividade variável que podem servir de referência ao orçamentista. Ainda em se tratando de custo direto, outro erro comum é querer orçar com baixo percentual de encargos sociais. Quem quer construir certo, tem que orçar conforme vai proceder. De nada adianta querer atribuir encargos inexeqüíveis se depois terá que pagá-los na obra.

E os erros no cálculo do preço de venda?
O erro mais grosseiro que eu vejo nos setores de orçamento é como aplicar os impostos e o lucro. Digo grosseiro por não ser um erro de premissa, como os demais, mas um erro de matemática. Se o custo direto mais indireto da obra chegou a 100, os impostos são de 10% sobre o faturamento e a lucratividade almejada é de 10% do contrato, está errado calcular os 20% sobre os 100 e fechar o preço de venda em 120. É só parar para pensar: procedendo assim, os impostos e os lucros foram calculados em cima do custo, quando deveriam ter sido computados a partir do preço de venda. Ora, para calcular corretamente, é preciso então fazer a seguinte conta: o preço final é 100 dividido por (1-0,20), ou seja 100/0,80 = 125. Com este valor, sim, os impostos serão 12,5, o lucro será 12,5 e haverá os 100 requeridos para fazer a obra. É impressionante como até empresas tradicionais incorrem nesse erro pueril.

A integração entre o departamento de orçamento e o canteiro de obras, bem como o uso de ferramentas de trabalho como softwares e comunicação via internet fazem, de fato, parte do dia-a-dia dos engenheiros de custos?
Não é a regra. Vemos sempre uma separação entre escritório e campo. É preciso que quem orçou vá ao campo visitar obra, trave contato com o dia-a-dia da produção e cobre do pessoal da obra uma retroalimentação sobre os índices que usou: produtividades, perdas, etc. Se não houver essa interação, o orçamentista não saberá se orçou bem e continuará usando parâmetros equivocados em outros orçamentos. Lamentavelmente, o costume é de se louvar a equipe da obra quando o contrato deu lucro e culpar o orçamentista quando deu prejuízo. O melhor é apropriar dados de campo e detectar onde estava a falha.

A apropriação dos índices em obra deve ser um atributo do orçamentista? Os orçamentos devem englobar esse escopo?
O orçamentista deve cobrar da obra que os índices sejam apropriados. Apropriar que dizer aferir, tornar conhecido. Na obra, deve ser uma atribuição do gerente. Não é preciso apropriar todos os serviços, apenas os mais significativos e é aí que entra a Curva ABC de Serviços para apontar quais são esses serviços. Um apontador criterioso pode muito bem preencher as planilhas: basta anotar quantas horas de pedreiro de alvenaria foram pagas naquela semana ou naquele mês e comparar com a quantidade executada no período. Ao dividir horas por área, tem-se o índice para comparação com o índice adotado no orçamento. Se estiver muito discrepante, dá tempo de tomar providências.

O contratante, em geral, reluta em aceitar a inclusão de certos custos no BDI? Quais os itens mais problemáticos?
Eu costumo dizer que a maioria dos problemas com BDI advêm do desconhecimento do que ele significa. Para muita gente, é uma caixa-preta onde cabe tudo. Já vi uma obra em que o fiscal cobrava almoços e tanques de gasolina do construtor, dizendo que “BDI é para isso mesmo”! (risos). O BDI, ou Benefícios e Despesas Indiretas, é o mal necessário para que a planilha de preços, que só traz a relação dos serviços de campo, possa incluir os custos indiretos, impostos e lucro. O BDI é a diluição que se faz destes custos sobre os itens existentes da planilha. Assim, por exemplo, se o custo dos serviços da tabela é 100, o indireto é 15, os impostos 8 e o lucro 10, o preço total é 133. Todavia, como não há item na tabela para as despesas indiretas, impostos e lucro, a solução é diluir os 33 sobre os 100 da tabela: o multiplicador é 1,33, ou seja, um BDI de 33%.

Pode-se desonerar o BDI?
Sim, é só pensar conceitualmente. Se o BDI é a diluição do que não consta na planilha da obra, quanto mais detalhada a planilha, menor o BDI. Se a planilha, por exemplo, contiver itens como placa da obra, tapume e carro da fiscalização, eles não mais entrarão no BDI, pois terão migrado para a família dos serviços explicitados na planilha. O preço total da obra continua sendo o mesmo, mas o BDI diminuiu. O livro traz muitas considerações sobre a desoneração do BDI.

Como evitar que o BDI seja causa de conflito com o contratante?
O BDI precisa ser informado pela empresa contratada durante a licitação ou negociação do contrato. É a melhor forma de haver um critério prévio. O BDI não é elástico nem infinito, como acham muitos contratantes. Se a obra se atrasa por motivo imputável ao contratante, como acontece em obras públicas que apresentam problemas de projeto ou desapropriação, não é certo que a construtora arque com o ônus sozinha. Se seu BDI cresce, ela deve reivindicar reajuste. Se vai receber, é outra história.

O BDI serve também para estipulação do preço dos serviços novos?
No caso de serviços novos no contrato, coisa bem comum, a forma correta de definir o preço é orçar o custo direto e aplicar sobre ele o BDI previamente acordado. Desta forma reduz-se muito o nível de conflito.

Quais necessidades o senhor detectou no mercado que o motivaram a lançar o livro Como Preparar Orçamentos de Obras?
A literatura brasileira de engenharia em geral é ainda incipiente. Poucos são os livros, poucas são as publicações periódicas. A idéia do livro foi jogar luz sobre todos os passos da orçamentação, chamando a atenção do profissional para detalhes importantes e alertando-o para erros comumente feitos. Dois capítulos são dedicados ao sempre mal compreendido processo de composição de custos de terraplenagem, importante para quem orça obras de terra. O livro é uma singela contribuição que não esgota o assunto, mas serve de referência. Minha experiência não deve ficar só em minha cabeça ou nos serviços que faço. O saber técnico tem uma função social. Espero que os leitores gostem.

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