Ponto de Vista 02-01-2008This is a featured page

SPT: Um mal indispensável na Engenharia de Fundações

por David Oliveira


O ensaio de SPT, do inglês Standard Penetration Test (Sondagem a Percussão) talvez seja um dos ensaios mais corriqueiros da Engenharia Civil. É realmente um ensaio indispensável às nossas construções pois além de simples e facilmente fazer o reconhecimento do subsolo local, fornece indicativos das propriedades físicas do solo de fundação.

O Brasil é exportador de experiência neste ensaio, largamente estudado por nossos competentes e renomados pesquisadores, a exemplo do Luciano Decourt, Urbano Alonso, Dirceu Velloso (in memória), Nelson Aoki entre outros.
Acredito que através destas pesquisas, o uso do SPT permitiu certo impulso na Engenharia de Fundações nacional, permitindo a aplicação dos conhecidos métodos brasileiros de dimensionamento direto através do SPT. Além da direta avaliação do perfil do subsolo, que permite a identificação de camadas que por ventura controlem os recalques/tensões admissíveis, é extremamente conveniente aplicar tais fórmulas fornecendo apenas o número de golpes ou índice de resistência a penetração, obtendo como resultado a capacidade de carga ou tensão admissível do solo.
Para casos mais simples e obras de menor porte é possível confiar nas informações obtidas pelo SPT que aliados a uma boa avaliação de engenharia, bom senso e outros poucos ensaios simples de laboratório, como caracterização de solos por exemplo, permite a realização de um bom e confiável projeto. Isto tem especial validade para edificações que por vezes nem dimensões mínimas de norma são atingidas nos cálculos procedidos.
Sem sombra de dúvida este ensaio deveria ser o ponto de partida mínimo para qualquer obra, o que infelizmente nem sempre acontece. Economia exagerada nas etapas investigatórias e iniciais certamente limita a possibilidade de obtenção de melhores dados e parametros para o projeto o que certamente reduz a possibilidade projetos de melhor qualidade, confiáveis e econômicos. Infelizmente muitos ainda não enxergam desta forma e nem este simples ensaio querem fazer. Quantos ja não ouviram a pergunta ao projetista se é possível eliminar tal gasto? Será que pergunta semelhante seria feita a um médíco que solicitou um exame cardiológico para seu diagnóstico?
Lembro-me de certo parecer técnico do ilustre mestre da geotecnia Bahiana, ex-professor e consultor na área de solos, Moacyr Schwab, citando que por ser tão fácil e conveniente no mínimo deveria-se especificar o ensaio SPT-T (ensaio com medição de torque) ao invés do convencional SPT pela obtenção de maiores informações.
Mas se o SPT é indispensável por que seria também um mal?
Ao mesmo tempo que há a tendência de realizar economia não executando o ensaio de SPT em obras de menor porte, há também para obras de médio a maior porte a tendência de acreditar que o SPT é a solução de todos os problemas devido a sua facilidade, disponibilidade e relativo baixo custo. A existencia dos métodos diretos citados anteriormente, somados a existência de inúmeras fórmulas que permitem a correlação dos dados do SPT à inúmeros outros parametros da engenharia de solos dá a sensação que muitas respostas são fornecidas por este ensaio. Por que não?
A resposta vem das palavras propositalmente em negrito nos paragráfos anteriores: indicativos/índice. O próprio termo conferido a um dos principais dados do SPT, o índice de resistência a penetração, confere seu objetivo, ou seja, fornecer indícios/indicativos do comportamento do solo em termos de resistência. Então a pergunta é: é salutar para a engenharia realizar projetos somente com base em indícios?
Correlações empíricas seguem o mesmo caminho, ou seja fornecem uma estimativa do atual caso em estudo com outro já semelhante já estudado, não havendo qualquer garantia.
Se há necessidade ou interesse de estudos mais apurados, principalmente em termo de deformações, os dados do SPT tornam-se ainda menos confiáveis. O índice de penetração fornecido pelo SPT, como o próprio nome diz, fornece uma razoável estimativa da resistência do solo, mas pouco sobre sua deformabilidade.
Além da briga pela mínima realização do SPT é importante que não esqueçamos que uma investigação de solos não se resume ao mesmo. Como exemplo, para obras que o custo justifique e que haja indicativo (de onde? do SPT) de solução em fundações superficiais, além da determinação de características e parâmetros de resistência do solo em laboratório com uso de amostras indeformadas, por que não realizar ensaios de carregamento de placa também simplesmente chamadas provas de carga? Este ensaio além de resultar diretamente na capacidade de carga in situ também lhe fornecerá os parâmetros para análises de deformações com citado em parágrafo anterior.
Já para fundações profundas, não esqueçamos que a própria NBR6122 - Projeto e Execução de Fundações recomenda a realização de ensaios de carregamento/provas de carga em estacas em um número mínimo tanto em percentual como global, os quais iriam fornecer de dados relevantes em termos de deformações e tensões que podem confirmar hipóteses assumidas e a avaliação preliminar realizada pelo SPT.

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