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"Logística concreta", um comentário



A propósito do Artigo de mesmo nome veiculado pela Editora PINI e que circulou nas Comunidades em e-mails de outubro de 2006 (veja o artigo aqui), me ocorreu fazer alguns comentários que agora coloco aqui como Nota Técnica.

O objetivo é mostrar toda a amplitude e seriedade do planejamento feito pelo Engenheiro Tecnologista do Concreto nas fases de Projeto e Execução, escopo que é normalmente desconsiderado por Projetistas e Construtores, que consideram esta atividade “apenas um custo”...enquanto perdem dinheiro por falta desse recurso.

A coisa mais importante que um construtor deve saber sobre a aplicação de concreto em uma obra é a capacidade de aplicação em m3/hora que a obra e sua equipe possuem.

Por exemplo, certa vez tivemos que preencher um buraco submerso a jusante de uma barragem que sofrera intensa erosão, ao ponto de descobrir algumas estacas junto ao seu apoio em rocha. Pois bem, colocamos uma bomba jogando dentro de uma tremonha (tubo para concretagem submersa) sustentado por um guindaste colocado em uma barcaça, que fazia a movimentação na superfície, enquanto mergulhadores controlavam a ponta submersa (8 a 12 metros de profundidade).

Não preciso dizer que era só jogar! Naquele tempo o caminhão betoneira era de 5 m3, a bomba tinha capacidade para 60 m3 por hora mas nós não conseguíamos pôr mais de 6 caminhões por hora, então nossa capacidade era de30 m3/hora e nossa concretagem máxima, em 24 horas ininterruptas era de 500 a 600 m3. Vejam só: não tínhamos que fazer acabamento, era só jogar!
Este concreto vinha de usina montada na obra, tínhamos um caminhão betoneira e um percurso de 1 km, portanto chegava fresquinho ao local de aplicação.

Já numa laje, em obra urbana (transporte crítico), com a preocupação do acabamento, o que governa a frente de trabalho é esta capacidade de acabamento em m3/hora. Assim, considerando uma concretagem de 200 m3, o acabamento deverá ser de25m3/hora, sempre considerando a aplicação em no máximo 8 horas (luz do dia). Se considerarmos caminhões de 10 m3, serão20 caminhões ou seja, um caminhão a cada 24 minutos (média), a partir do primeiro, rigorosamente Egydio.24.10.2006 - Wiki do "Calculistas-BA"no horário. Durante este tempo de 24 minutos o concreto de cada caminhão deverá estar com a mesma plasticidade (slump) estudada em Projeto (Dosagem), para proporcionar a mesma qualidade de acabamento na frente de trabalho constantemente. Para determinar esta característica ao concreto, procede-se na dosagem à determinação de uma curva de "slump x tempo", de tal maneira a garantir que nos 24 minutos disponíveis à obra (após o tempo de transporte) o slump se manterá dentro de limites aceitáveis para a consistência necessária.

Na obra, para garantia desta situação (não vale ficar jogando água para "corrigir" slump, lógico) deve-se controlar o concreto moldando cone de slump a cada 5 minutos, por exemplo, e, sabendo-se antes o limite aceitável, rejeita-se o concreto "não aplicável" (devolver o caminhão à usina, assumindo a responsabilidade pelo pagamento quem tenha responsabilidade pelo atraso), garantindo-se assim a conformidade da estrutura.
Pode-se também estudar previamente o uso de aditivos redosáveis, que reponham a consistência a níveis aceitáveis durante a concretagem e proporcionem um "tempo extra" para aplicação - isto é caro mas justifica-se ao eliminar perda de concreto e de qualidade.
Considerando a espessura média desta laje em 0,18 m, a área média de superfície concretada e acabada por hora é de 139 m2, ou 56 m2 por caminhão betoneira. Esta é a área que a equipe de acabamento deve vencer, logo a seguir à equipe de espalhamento e adensamento. Esta é a área que deverá ser levada em conta para o dimensionamento da equipe e do equipamento.

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Finalmente, esta é a área de aplicação de cura, para evitar inicialmente a fissuração por retração superficial e depois, para garantia da manutenção da água de hidratação para o cimento. A própria cura, em função do grau de evaporação, que pode ser avaliado a partir do conhecimento da umidade relativa do ar, temperatura ambiente, temperatura do concreto, velocidade do vento – dados fornecidos diariamente em sites na INTERNET para qualquer região do mundo -, permite dimensionar a quantidade de água em litros/m2 a repor constantemente, pois nenhuma região da superfície pode perder água nem tampouco receber choque térmico com as tradicionais "mangueiradas fortuitas", usualmente praticadas nas obras à guisa de "cura".

No exemplo apresentado na figura acima, resultando uma probabilidade de evaporação de 2,2 litros/m2/hora, seria necessário repor (cura molhada: 139 m2/hora x 2,2 litros/m2/hora =) 306 litros por hora apenas na frente de avanço da concretagem. Para a área total prevista (200 m3/0,18 m =) 1.111 m2 no dia da concretagem, seriam (1.111 m2/139 m2/hora =) 8 frentes geradas em um dia, a cada hora, fazendo com que a demanda crescente de água seja dos iniciais 306 litros/hora até (8 x 306 =) 2.446 litros/hora em toda a laje, considerando, claro, que nenhuma parte, a partir do início da concretagem, ficará sem água para cura. É preciso portanto dimensionar abastecimento de água para esta demanda, ou usar recursos combinados com água, como a “cura química”, película de proteção – não considerar como funcionamento absoluto contra a evaporação pois não há garantia de 100% de eficiência.

Resumindo: para fazer Engenharia é preciso planejar e controlar, ao lado de executar. Planejar e controlar são atribuições de Projeto, que demandam escopo (trabalho) na fase de Projeto e na fase de Execução. Não há como cotejar antecipadamente o custo de horas técnicas de Engenheiro despendidas neste trabalho. Mas não pode ser descartado como “custo” quando claramente por falta dele, as obras apresentam defeitos graves imediatos, como fissuração, perdas por descontrole e retrabalho, e defeitos futuros, repassados aos usuários e corrigidos de forma dispendiosa nesta fase em que tudo é mais difícil, muitas vezes impossível de ser consertado.

Precisamos respeitar e fazer respeitada a Engenharia!

Egydio Hervé Neto, 24/10/2006

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