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ModeloArtigos - Wiki do "Calculistas-BA"

Indústria da Construção

Egydio Hervé Neto, Eng.° Civil UFRGS 1971, Consultor em Tecnologia do Concreto e Qualidade, Diretor Técnico da VentusCore Soluções em Concreto (www.ventuscore.com.br), egydio@ventuscore.com.br, Porto Alegre, RS
Resumo: Esta expressão é explorada na mídia e na sociedade, traçando um paralelo que "agrada" aos ouvidos e impressiona os sentimentos das pessoas. Tendo em vista esta situação, muito dessa expressão pode ser aproveitada para traçarmos um paralelo entre a "construção" e a produção automobilística, por exemplo. Usando este modelo, o artigo apresenta as diferenças mas traça paralelos que permitem hoje, sistematizar a produção das obras, através não apenas da industrialização, que é possível aplicar apenas em algumas de suas partes, mas principalmente da "racionalização" modelo que proporciona a subdivisãoda obra em etapas a serem desenvolvidas com produtos e parceiros especializados e este procedimento é possível planejar, organizando-o como uma "linha de montagem". Este é um modelo identificado e utilizado na Comunidade da Construção, da ABCP, criada em 2002. O Artigo apresenta um "check list" das etapas de uma construção racionalizada, apresentando os novos atores, geralmente terceirizados, que completam o escopo executivo, sob a gestão de um sistema de controle que preservará a garantia da qualidade. Ao encerrar, colocamos um apelo para estimular as autoridades a compreender a importância da "indústria da construção" frente às demais, como geradora de riquezas e principalmente empregos.
04/09/2002

Embora seja uma expressão plenamente integrada ao vocabulário da Engenharia, da Economia e da mídia em geral, esta expressão ainda tem que ser muito trabalhada para se tornar a realidade desejada pelo setor da construção brasileira. Diferente de qualquer indústria, o setor da construção não produz, em um local, vários produtos, mas, ao contrário, produz em cada local, um produto.

Ao invés de ter os operários em volta do produto, tem o produto envolvendo os operários gradualmente. A seqüência de produção é, como na indústria automobilística, uma montagem de diversos componentes, alguns encaixados, outros moldados no local, com a diferença de ser a construção muitas vezes maior que o automóvel.

Usando este mesmo modelo da indústria automobilística podemos entender melhor, numa escala mais realista, todo o complexo da industrialização da construção. Ela pode ter também uma linha de montagem, com a diferença que, sendo cada modelo diferente do anterior, a diversidade de componentes disponíveis tem que ser maior. Também, como conseqüência, o número de fornecedores é muito maior e a dificuldade de organizá-los sob padrões de qualidade, nos moldes de gestão comandados pelas Montadoras de Automóveis, é muito maior.

Apesar dessas diferenças, permanecendo neste comparativo, é possível organizar os fornecedores em padrões de produtos, de procedimentos, de especialização, e isto está acontecendo através de programas como os PSQ - Programas Setoriais da Qualidade, onde se definem os padrões, estimulam-se as criações de Normas dentro de necessidades de Qualidade em acordo com as possibilidades do mercado e passa-se a dispor de produtos certificados e serviços qualificados.

Independente do grande e reconhecido esforço realizado pelo Governo Federal no âmbito do PBQP-H - Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade para a Habitação, um exemplo de sucesso em um trabalho que vence as dissidências políticas e busca uma saída para este problema da moradia da família brasileira, a própria iniciativa privada cresce em ações de união em torno dos meios de industrializar para organizar a construção.

Exemplo disso é a iniciativa da Comunidade da Construção -http://www.abcp.org.br/comunidade/index.php -, o site criado pelos principais parceiros do setor, integrando os Sinduscons de todo o país, e demais entidades como SENAI, SEBRAE, universidades e empresas, coordenados pela ABCP, através do Projeto Racionalização das Estruturas de Concreto e Revestimentos Argamassados.

Conscientes da representatividade do setor no PIB brasileiro (16%) e da importância do concreto nas nossas obras, a atividade desenvolvida nessa Comunidade é centrada nos aspectos operacionais da construção como indústria, especialmente na execução das estruturas de concreto moldadas na obra e dos revestimentos argamassados, práticas preponderantes no setor.

No que diz respeito à execução de estruturas de concretos moldadas no local, a industrialização se estabelece através da racionalização dos componentes da estrutura em uma linha de montagem sistêmica. A estrutura como um Sistema Estrutural, responsável pelo suporte das cargas, composta de vários sub-sistemas ordenados sob um Planejamento Executivo, que se inicia a partir da concepção (Projeto Arquitetônico, Projeto Estrutural), planejamento (estabelecimento de etapas, seqüenciamento logístico, identificação de insumos, definição de características técnicas, qualificação de fornecedores, planos da qualidade) e culmina na execução propriamente dita.

Resumidamente a execução da estrutura, em linha de montagem, se dará pela interação dos seguintes sub-sistemas:

I. Formas
I.I. Projeto de cimbramento
I.II. Projeto de formas
I.III. Procedimentos de corte
I.IV. Procedimentos de pré-montagem
I.V. Procedimentos de montagem (obra)
I.VI. Procedimentos de controle durante a concretagem
I.VII. Procedimentos de reescoramento
I.VIII. Procedimentos de desforma
II. Armaduras
II.I. Procedimentos de corte e dobra
II.II. Procedimentos de pré-montagem
II.III. Projeto de espaçadores e posicionamento
II.IV. Procedimentos de montagem
II.V. Procedimentos de controle durante a concretagem
III. Concreto
III.I. Identificação dos parâmetros do concreto fresco e endurecido (dosagem)
III.II. Identificação e qualificação do fornecedor
III.III. Logística do transporte à obra
III.IV. Equipamentos e logística de transporte interno
III.V. Logística de distribuição e acabamento
III.VI. Procedimentos de cura

Todo este seqüenciamento de ações que caracterizam a linha de montagem industrial da execução da estrutura permite a consolidação de procedimentos previamente estabelecidos pelo planejamento e monitorados pelo controle, dentro de um Sistema de Garantia da Qualidade de cada "produto" (obra) da nossa "indústria" (construtora).

Este Sistema de Garantia da Qualidade, como em uma indústria tradicional, pode ser formalizado e implementado a partir das Normas ISO 9000, conforme as "Diretrizes" apresentadas na ISO 9004 (aliás, NBR 19.004, no Brasil). A construtora não necessita uma certificação formal - embora isto seja desejável e até exigido por alguns contratantes - para empregar estas Diretrizes, nem precisa fazer isto em todas as suas obras mas a cada uma isoladamente, o que forçosamente demonstrará as vantagens de estender este procedimento às demais obras e às suas áreas staff.

O sucesso de todas as etapas - pois de cada etapa depende o sucesso da próxima - depende da "Documentação do Sistema" que significa elaborar, registrar e disponibilizar informações das fases de concepção, planejamento e execução - segundo diretrizes que preservem hierarquia e participação - a todos os envolvidos.

O documento principal é o Manual da Qualidade, onde se encontram inicialmente as informações de concepção e planejamento e, à medida que a estrutura se desenvolve, as pertinentes à execução.

As informações de controle, que servem à comprovação da conformidade ao projeto e portanto como documentação formal do atendimento à qualidade, fazem parte do conjunto dos Planos da Qualidade, registradas em capítulo especial do Manual, contendo os planos da qualidade propriamente ditos, ou seja, o roteiro e a quantificação das ações de inspeção e testes especificamente estruturados para a obra na concepção e no planejamento, mas principalmente, os resultados do controle, contendo documentos finais tais como Certificados de Qualificação de Insumos e de Fornecedores, documentação de testes e inspeções de campo e laboratoriais, enfim, a comprovação do atendimento às especificações exigidas pelos Projetos.

No dizer dos criadores da Comunidade da Construção "... é clara a percepção de que podemos dar um salto.", e mais adiante "... nossa idéia é articular todos os agentes envolvidos...". Com isto se pode tirar maior proveito ainda do paralelo com a indústria automobilística: cadeia de fornecedores alinhados, com padrões de qualidade de produtos e procedimentos definidos, preservando a individualidade mas dentro de um objetivo comum que exige um mínimo de foco em racionalização, o que traz consigo a idéia de união em torno de um problema maior que é a viabilização de um custo menor e uma maior competitividade à indústria como um todo.

E aqui, no final dessa reflexão, pedimos licença para agradecer e nos afastarmos do paralelo com a indústria automobilística por vários motivos: a indústria da construção é sinônimo de emprego, tem a amplitude do povo brasileiro e por isso é sinônimo de bem estar social em todos os níveis e finalmente, por tudo o que representa, merece uma atenção infinitamente maior que a indústria automobilística.



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